Carta aberta ao mundo!
Quando eu era adolescente, havia uma frase que eu repetia para mim mesmo, que faz parte de mim como se tivesse sido esculpida na pedra: "Aquele que se esforça obtém sempre aquilo que merece". Mas este mundo ensinou-me que aquele que se esforça pode bater contra um muro e o colapso pode quebrar os seus ossos em muitos pedaços. Quando criança a gente sonha em ser mais velho, crescer para poder ter mais voz no mundo e fazer grandes coisas. Porque pensamos que vamos criar alguma diferença. E naquele momento não era um exercício de narcisismo, e sim uma crença fruto da inocência que somente a inocência pode entender. É fácil ser feliz quando as coisas estão bem, quando ao redor se respira a tranquilidade que somente os olhos de uma criança ingénua conseguem ver num mundo repleto de pessoas que fingem levar uma vida de cinema. Um mundo que nos penaliza por falar verdade e sermos humanos. Quando a ditadura da "felicidade" inundou as nossas vidas, foi nesse momento que nos conseguiram calar com promessas incumpridas. É então que tu cresces e o mundo muda. O que tu pensavas transforma-se numa absurda crença de um mundo justo, uma ideia irracional que dominava a tua vida e que agora é uma corda que prende o peito, uma corda que às vezes não te deixa respirar. Tu cresces e já nem sabes nem quem és porque as possibilidades tornaram-se impossíveis. Porque o que tu sonhavas quanto eras criança parece distante e já não está ao alcance das tuas mãos. Tu cresces e vês que o esforço implica um sofrimento que muitas vezes não é recompensado. Tu cresces num lamento negando a ti mesmo coisas que nem sequer entendes mas que te prejudicam profundamente na alma. Porque às vezes as palavras que dizemos a nós mesmos são gritos surdos que nos acorrentam à culpa que habita as nossas próprias almas por termos perdido a inocência. Tu cresces e descobres que a magia não existe, que a razão quer dominar um mundo onde a incoerência alimenta o ego daqueles que têm o presente envenenado de uma vida mais fácil, sem nem sequer terem precisado se esforçar. E então tu sentes que és uma decepção para ti mesmo e para aqueles que te amam. Ficas com a sensação de teres sido tão ingénuo no passado e de te teres rendido no presente, deixando-te levar por essa corda que te amarrava ao mundo, esse que foi a tua construção quando criança e que parecia perfeito. Mas tu decides não parar de sonhar. Decides não procurar os responsáveis do passado para aceitar a tua própria responsabilidade pelo futuro. Decides que quando estás cego de olhar para o sol da injustiça, é muito provável que não encontres o caminho que leve à sombra que te vai dar um abrigo enquanto tu procuras o teu lugar no mundo. Tu decides que te vais reerguer como uma ave fênix, ressurgindo das tuas cinzas e voando com a cabeça elevada sobre o mar da indecisão no qual mergulhaste quando perdeste a inocência, quando deixaste de ser uma criança que lia histórias para se transformar no protagonista da tua própria história. Então tu decides tomar o leme do teu barco mesmo que seja contra a corrente. Mesmo que as ondas alheias respinguem com as censuras que refletem as tuas próprias frustrações. Porque tu aprendeste que és invencível se realmente lutares por aquilo que queres. E mesmo que em algum lugar o relógio continue a correr desfavoravelmente por não ter encontrado ainda o teu lugar no mundo, tu sabes que tudo o que vale a pena nesta vida é sempre difícil de encontrar e muito mais difícil de obter. Além disso, agora tu já sabes responder a uma pergunta importante: a vida é uma porcaria? Sim, mas agora eu já aprendi e agora jogo com vantagem. A vantagem dos que lutam, sonham e persistem, dos que não se entregam, dos que realmente vivem com paixão cada passo incerto que vão em frente, dos que mesmo com medo prosseguem. Porque a vida é isso, simplesmente isso. Viver profundamente.